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[Resenha #716] O Guardião - Daniel Polansky @geracaobooks @DanielPolansky


O Guardião
Trilogia Cidade das Sombras - Livro 01
Daniel Polansky
ISBN-13: 9788581300344
ISBN-10: 8581300340
Ano: 2012
Páginas: 448
Editora: Geração Editorial
Skoob
Classificação: 5 estrelas
Compre: Submarino

Sinopse:

Anti-herói desencantado combate o crime num mundo assombroso. Poderá se redimir ao investigar o estupro e assassinato de uma garotinha? Imagine um policial noir como os de Raymond Chandler e James Ellroy com o ritmo sanguinolento dos filmes de Quentin Tarantino e a fantasia de “O Senhor dos Anéis”, num cenário como a Los Angeles de “Blade Runner”, onde os policiais não querem ver nada que não convenha e convivem com gangues multiétnicas de assassinos, prostitutas, contrabandistas, drogados e traficantes. Pelas ruas imundas desse mundo devastado, em meio a uma fauna corrupta de que é prudente desconfiar a todo momento, vaga o “Guardião”, um tipo solitário e desiludido que viveu como combatente numa grande guerra, sobreviveu a uma peste e leva a vida como narcotraficante. Ele se droga para suportar seu cotidiano sórdido e investiga o cruel assassinato e estupro de uma garotinha. “Cidade das Sombras” é uma trilogia fantástica, cujo primeiro volume é este alucinante romance de estreia que inaugura um novo gênero: a “fantasia noir”. Tenso, com um suspense crescente, “O Guardião” surpreende pela ousadia, assusta com a previsão de um futuro sombrio para a humanidade e garante uma leitura de impacto do começo ao fim.




Fiquei na incerteza por onde iniciar essa resenha e acabei optando por falar um pouco do gênero que o livro foi designado. Quando li a sinopse vi que estava intitulada como “fantasia noir” e fiquei plenamente perdida. Olhando no site da Geração Editorial pude compreender com um pouco mais de clareza o termo, acompanhem a definição usada no site: Os críticos o classificam como “fantasia noir”, um híbrido de fantasias do tipo “YA” (Young Adults), envolvendo dons paranormais e feitiçaria, e policial “noir”, gênero de livro de novelas com detetives “hard boiled” (durões) que proliferou nos EUA nos anos 1940 e teve grande eco popular através do cinema, revelando autores como Raymond Chandler, Dashiel Hammett e James Ellroy, entre outros. Um crítico chegou a dizer que neste livro “Tarantino se encontra com Tolkien”, para ilustrar com clareza a fusão dos gêneros. Soa bastante impressionante, certo?



Vamos lá, me aventurei de cabeça no livro e minha nossa... Daniel Polansky passou do anonimato para um dos meus autores favoritos! O infortúnio do mundo criado pelo autor é tangível. Andar e contemplar o que se passa pelas ruas da Cidade Baixa é tão concreto que chega a revirar o estômago. O protagonista da história chamado de O Guardião é um traficante e usuário de drogas que possui um passado discutível. Ele costumava ser muito mais que uma alma perdida, mas agora ele caminha pelas ruas da Cidade Baixa disseminando e vendendo suas drogas e procurando manter-se vivo.


O Guardião com a sua obscura memória de sobrevivente da febre vermelha, das ruas e da guerra, desistiu de uma carreira de sucesso no cumprimento da lei para entregar-se a vida do crime. O negócio é pesado galera e juro que dá para sentir a sujeira impregnando nos poros, o odor dos narcóticos e toda a imundície e crueldade que os menos favorecidos sofrem nesse livro.

O Guardião é um anti-heroi, um homem marcado por cicatrizes no corpo e na alma.  Ele chega para contar uma história igualmente horrenda de drogas, ambição, terror, aventura e assassinato. Ele é muito impulsivo, de natureza inquietante e possuidor de uma honestidade implacável. Comecei lendo o livro não gostando nada dele, afinal quem não gosta de ter um protagonista lindo e maravilhoso ao invés de um homem marcado emocionalmente e feio fisicamente? Sempre sonhamos com protagonistas que nos façam suspirar né?


Por mais ridículo que possa parecer há uma espécie de encanto obscuro quando descobrimos o passado e motivos do nosso protagonista. Mas garanto que no decorrer da narrativa é impossível se tornar imune ao que a vida lhe causou sendo até passível de perdão, pois ele já amargou o suficiente e dá para entender em minúcias o destino que ele trilhou para se tornar um homem tão fragmentado, com amigos que pode contar nos dedos, além de não conseguir mais enxergar esperança em si mesmo.



O Guardião não possui uma vida nobre, passa seus dias de transgressões entre frascos de O Sopro da Fada, uma droga de respiração que ele faz uso indiscriminadamente e o tabagismo. A vida do Guardião toma corpo quando ele principia uma investigação particular a respeito de um assassinato.  Ele encontrou o corpo de uma criança dizimada de maneira cruel e sua existência vulgar e insensível está prestes a mudar de maneira irremediável.


 [...] Diante de mim estava o corpo de uma criança, terrivelmente contorcido e enrolado em um pano ensopado de sangue. Parece que eu tinha encontrado a pequena Tara.  De repente fiquei sem apetite. Atirei meu jantar na sarjeta [...]

Agora, por favor, não imaginem uma remição salvadora do Guardião. É do conhecimento comum o quanto é penoso na vida real à recuperação e reintegração de um viciado em drogas. O Guardião com certeza tem um percurso colossal a ser percorrido embora o leitor possa usufruir da mudança sutil de sua personalidade ao longo dos capítulos.


[...]-Você é um homem frio.
-Este é um mundo frio. Eu apenas me ajustei à temperatura [...]


O enredo corre como uma cascata de informações e o caminho é tão tortuoso que temos que ficar atentos a cada página lida. As batalhas travadas e as perseguições são rápidas e saturada da velha e boa ansiedade de chegar ao desfecho. O Guardião é um homem realmente frio, que extermina sem fúria, esses são os piores einh? Totalmente movido por uma funcionalidade simplória, modo de operação que ele aprendeu com a vida da maneira mais desumana possível. O desfecho desse livro foi além das minhas expectativas e como já possuía o segundo volume em mãos me remeti com sofreguidão à leitura.


[...] E enquanto eu os via ir embora, percebi que tinha gostado do olhar que vi nos olhos deles, tinha gostado de não ser a pessoa que olhava daquele jeito. E se aquilo significasse que eu precisava ter minhas mãos molhadas de pequenos pedaços do cérebro do garoto, que assim fosse, pois não era um preço alto demais a pagar… Um sorriso selvagem veio de dentro de mim e eu vomitei para o mundo [...]

A marca registrada da obra é a narrativa em primeira pessoa. Nunca li algo tão poderoso, completo e meticuloso. Cada linha de diálogo, esclarecimento, desenvolvimento dos personagens e detalhamento dos acontecimentos se entrelaçam entre si não deixando pontas soltas pela história.



A capa é bem trabalhada e tem tudo a ver com a obra, a diagramação limpa, a fonte agradável e as páginas amareladas e grossinhas fizeram com que eu recomendasse a leitura em 100%. Vocês não podem ficar por fora dessa história.

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