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[Resenha #840] Capitães da Areia - Jorge Amado @cialetras


Capitães da Areia
Jorge Amado
ISBN-13: 9788535911695
ISBN-10: 8535911693
Ano: 2008
Editora: Companhia das Letras
Skoob
Classificação: 5 estrelas
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Desde o seu lançamento, em 1937, Capitães da Areia causou escândalo: inúmeros exemplares do livro foram queimados em praça pública, por determinação do Estado Novo. Ao longo de sete décadas a narrativa não perdeu viço nem atualidade, pelo contrário: a vida urbana dos meninos pobres e infratores ganhou contornos trágicos e urgentes. Várias gerações de brasileiros sofreram o impacto e a sedução desses meninos que moram num trapiche abandonado no areal do cais de Salvador, vivendo à margem das convenções sociais. Verdadeiro romance de formação, o livro nos torna íntimos de suas pequenas criaturas, cada uma delas com suas carências e suas ambições: do líder Pedro Bala ao religioso Pirulito, do ressentido e cruel Sem-Pernas ao aprendiz de cafetão Gato, do sensato Professor ao rústico sertanejo Volta Seca. Com a força envolvente da sua prosa, Jorge Amado nos aproxima desses garotos e nos contagia com seu intenso desejo de liberdade.



Meu irmão sempre me diz que esse é o livro preferido da vida dele e eu sempre me perguntava o porquê. Okay, todo mundo conhece Jorge Amado de alguma forma, quando não é pelo Capitães da Areia mesmo, é por Gabriela Cravo e Canela ou qualquer um de seus outros livros famosos. Mas a expressão “livro favorito da vida” é forte demais e eu finalmente pude entender o motivo.


Capitães da Areia conta a história de um grupo de crianças moradoras de rua, que dormem em um trapiche abandonado, que adotaram esse nome para si. Esses garotos são conhecidos por praticar golpes e furtos pela cidade, claramente para a sobrevivência. Eles são temidos e detestados por toda a cidade de Salvador e a sociedade inteira pensa em uma solução aparentemente óbvia: reformatório.




Para quem não sabe, o romance foi publicado em meados de 1937 e teve a sua primeira edição toda apreendida e queimada em praça pública por autoridades da ditadura, em Salvador. É um romance modernista e a narração está cem por cento vinculada às transformações sociais, políticas e econômicas daquela época. Jorge Amado foi extremamente corajoso ao denunciar de forma escrachada o problema dos menores infratores e abandonados que desafiavam não só as autoridades, mas a sociedade em si. 




A crítica social representada nesse livro é muito pesada, tanto que pode causar repulsa em alguns leitores. É claro que fala sobre a violência, abandono, prostituição, mas retratara principalmente a personalidade das crianças, que apesar de sofrerem todo tipo de coisa ruim, de amadurecerem rápido demais, de passarem por maus bocados e cometerem crimes, não deixam de ser crianças. É uma leitura tão dolorida que fica difícil falar.


Exemplo disso é o Sem-Pernas, um dos Capitães da Areia, e, para mim, um dos personagens mais sofridos de toda a trama. Além de ser coxo, adquiriu para si uma personalidade sarcástica e cruel, mas tudo o que quer na vida é um pouco de amor e atenção. O Professor, de longe o melhor personagem e, talvez, o mais inteligente, busca refúgio nos seus livros. É o único do grupo que sabe ler. Pedro Bala, o líder do grupo, o mais homem, o mais maduro, cuida de si e dos outros, mas é tão frágil ao mesmo tempo. É um cenário extremamente triste e verdadeiro que chega doer.


A escrita de Jorge Amado é tão poética que pode causar estranheza em alguns leitores e não é nem um pouco parecida com o que estamos acostumados. Não tem um ápice, não tem um final feliz, apenas acompanhamos a história dos garotos e, na minha opinião, é justamente isso o que torna a história tão rica. Algumas cenas podem desagradar (por exemplo, em certa parte do livro há uma cena de estupro que foi tão romantizada que fiquei com muita vontade de jogar o livro na parede) pelo simples fato de serem reais demais.


Me desculpem vocês, mas é impossível falar de Capitães da Areia sem expor os meus sentimentos. A narrativa é maravilhosa, a história é maravilhosa, mas é tão triste que fica difícil decidir se gosto ou não do livro. É um livro incrível, pungente até demais, mas que nos faz pensar na desigualdade, no desamparo de nossas crianças e em todos os outros quadros que, infelizmente, vemos sem cessar agora, no presente.



1 comentários:

  1. Sempre tive vontade, mas nunca li nada de Jorge Amado...mas gostei muito da sua resenha e pretendo ler o livro esse ano ainda. bjs

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