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[Resenha #1225] Flores - Afonso Cruz @cialetras


Flores
Afonso Cruz
ISBN-13: 9788535927252
ISBN-10: 8535927255
Ano: 2016
Páginas: 272
Idioma: português 
Editora: Companhia das Letras
Skoob
Classificação: 5 estrelas
Compre: Amazon

Sinopse:
Um homem sofre muito com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o fato de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado.
Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo e constatar o quanto a sua vida se afastou dela, o homem decide ajudar o vizinho a recuperar todas as recordações perdidas. Em seu livro mais recente, o português Afonso Cruz apresenta uma bela reflexão sobre o amor e a memória.




Resenha:

Vamos começar falando um pouco sobre o autor desse livro, Afonso Cruz nasceu em Figueira da Foz, Portugal, no ano de 1971. Além de ser escritor, ele também é ilustrador, cineasta e faz parte da banda The Soaked Lamb. É autor de obras como Os livros que devoraram o meu pai, A boneca de Kokoschka, Jesus Cristo bebia cerveja, O pintor debaixo do lava-loiças e Para onde vão os guarda-chuvas. 




Nesse livro, Afonso Cruz nos conta a história de dois homens, dos quais um, o Sr. Manuel Ulme, é um homem sem passado, perdeu a memória em consequência de um aneurisma; o outro, vizinho do Sr. Ulme e o narrador da história, ao qual não chega a ser atribuído um nome, é um jornalista que acabou de perder o pai, é indiferente às tragédias do mundo e tem um casamento decadente com Clarisse que ele vê como uma "paisagem triste"; lembra-se do primeiro beijo de ambos o suficiente para perceber que agora "já não é assim". Ele é um homem egocêntrico e individualista, e nem se preocupa com a própria filha, perdido na rotina, na monotonia, na apatia emocional e afetiva. 

"O que interessa agora é: as verdades não se ouvem, já ninguém quer saber disso... Quando se vive privado de tudo, a verdade importa, mas, quando a temos em todo o lado, parece uma ficção." 



O Sr. Ulme é apaixonado por música e gosta de dançar, sabe tudo sobre flores e plantas em geral, se importa com as tragédias e as injustiças do mundo, é capaz de arriscar a vida pelo seu livro favorito, traz pendurado no pescoço uma chave que não sabe para que serve, não se lembra da infância, da juventude, do seu primeiro beijo ou de ter visto uma mulher nua. 

"- Sabe porque não somos felizes? – perguntou ele.- Desespero, solidão, medo?- Não. Por causa da realidade."

"Podemos olhar para uma frase e percebemos que aquilo é um mar, uma maneira de ser feroz, de navegar, de viajar, de ter peixes, de ter lágrimas. Eu acreditava que as frases eram armas capazes de mudar, de lutar, de resistir. Armas capazes de disparar um futuro"




O nosso protagonista decide ajudar o Sr. Ulme a recuperar o seu passado, visitando a sua terra de origem e recolhendo testemunhos daqueles que o conheceram. Uma missão que se revela complicada, entre portas que se fecham e depoimentos que se contradizem. No entanto, persiste e assume mesmo um elevado grau de comprometimento com a sua missão, seja ela a de ajudar o Sr. Ulme ou de, por essa via, a de ajudar a si mesmo. Pois, enquanto este tentar ajudar Sr. Ulme, simultaneamente vai avaliando a sua própria vida e vai questionando o sentido da relação desgastada que mantém com a mulher. Assim, vamos conhecendo o passado de um, o presente de outro, e tentando prever o futuro dos dois. O final não sendo previsível, também não foi surpreendente. Mas o fim não é o mais importante, e sim o percurso que cada um deles faz, as escolhas, os erros, os arrependimentos, a forma de encarar a doença e a morte. A originalidade não está nos temas abordados, está na individualidade das decisões acerca do que mais corriqueiro a vida nos exige e concede.

"Viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias."

"O espelho provoca em mim o estranho efeito de por vezes me dar a violenta estalada da realidade, por outras elevar-me à dimensão do sonho, da ficção, de uma verdade essencial que se deposita cá dentro e que, por timidez, evita sair senão em momentos de alguma intimidade."

"Creio que, numa relação, o beijo terá sempre de manter a densidade do primeiro, a história de uma vida, todos os pores-do-sol, todas as palavras murmuradas no escuro, toda a certeza do amor."

"A solidão deve ser a única emoção que não conseguimos partilhar, se o fizermos ela desaparece."

"Tenho a certeza de que a vida morre com a rotina e não com a morte, e que o hábito nos petrifica, (…) queremos o conforto da banalidade, daquilo que conhecemos, sentarmo-nos num restaurante e pedir sempre o mesmo bitoque, olhar para a corrupção quotidiana como quem olha uma montra de um pronto-a-vestir, fazer sempre as mesmas maldades, dobrar as camisolas da mesma maneira, votar nos mesmos criminosos, saber que as meias estão na gaveta certa, ignorar a miséria e ter a certeza absoluta de que os chapéus não serão jamais pousados em cima da cama."

"(…) a rotina embacia-nos, torna-nos indefinidos, desfocados, fantasmas, máquinas, ao mesmo tempo que nos solidifica em estátuas de sal. A consciência da morte é o que nos desperta dessa morte em que vivemos, que nos diz o que deveríamos ter feito, o que deixámos de fazer, a morte é um despertador que nos acorda para a inevitabilidade dos nossos erros."

"A única coisa que interessa saber é que vivemos numa tapeçaria e que, por mais longe que estejamos uns dos outros, somos a mesma história, fazemos parte do mesmo tapete, a morte de uns é o nascimento de outros, a face da nossa vitória é a derrocada de alguém."

"Era a tua mãe que gravava dentro da alma tudo o que testemunhava, e ela vai continuar a guardar essas memórias até morrer. As mães são as fiéis depositárias da nossa infância, dos primeiros anos. As tuas memórias mais importantes, mais formadoras, não são tuas, são dela. E quando a tua mãe morrer, levará consigo a tua infância, perderás os primeiros anos da tua vida. Por isso, trata-a bem."




A capa é a coisa mais linda, com vazado em formato de flor. Páginas amarelas e uma boa diagramação. Como esse livro foi mantido no português de Portugal, tive um pouco de dificuldade com alguns termos usados no português de Portugal, e acho que poderia ter tido notas de rodapé com os significados. 

A estrutura narrativa de Flores é diferente, mais fragmentada, podendo dar a ilusão de alguma falta de coesão. No entanto podemos perceber que isto é intencional. Afonso Cruz consegue montar e desmontar a vivência humana de uma forma surpreendente e cativante. Ele consegue traz humor para assuntos sérios e a escrita que vai do leve ao profundo num ápice, são o pretexto final para não deixar de se ler.

Como podem ver pela quantidade de quotes dessa resenha, que eu realmente gostei desse livro. "Flores" é uma linda reflexão sobre nossas escolhas, passado, memórias, amor, do resultado que somos do que plantamos nessa vida. A escrita é muito rica, me lembrou de autores como Fernando Pessoa e Jorge Amado. Gostei muito mesmo desse livro, e recomendo a todos. 

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